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quarta-feira, 28 de março de 2012

Aspecto verbal no grego antigo

SILVIA COSTA DAMASCENO (Professor Adjunto de Língua e Literatura Grega da UFF e Coordenadora do Setor de Grego da mesma Universidade)

O estudo da Gramática situa-se entre as várias indagações feitas pelos gregos, na busca do entendimento do mundo. Discutia-se, a partir do V século a.C., o caráter natural ou convencional da língua: seria ela natural, estaria em consonância com a physis, adviria de princípios eternos e imutáveis, fora do próprio homem, ou seria uma instituição convencional, resultante de um contrato social entre os membros de uma comunidade?

De todas as contribuições para os estudos lingüísticos, sem sombra de dúvida, a dos estóicos ocupa um lugar relevante, não somente para o estudo da língua grega, como também por servir como ponto de partida para os posteriores estudos das línguas indo-européias, em geral.

Segundo a filosofia estóica, a conduta correta humana deveria pautar-se em se buscar viver em conformidade com a natureza, e assim, pois, o verdadeiro conhecimento consistiria em colocarem-se em consonância, idéias e natureza. Partindo-se desse pressuposto e, sendo a língua, veículo do pensamento, os estudos lingüisticos ocupavam lugar essencial nesse sistema filosófico.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

“May”, “Might” e Particípios Adverbiais

Autor: Bill Mounce (William B. Mounce)
Tradução: Leonardo Felicissimo
Original: BillMounce.com
Me deparei com Mateus 2.8, e ele destaca duas coisas sobre as quais falei no passado.(Aviso: este é um blog ligeiramente técnico sobre Grego)
A primeira é a força de um particípio adverbial aoristo seguido por um imperativo. Herodes diz, “Ide (πορευθέντες) e buscai diligentimente (ἐξετάσατε) pela criança; e quando tiverdes encontrado, participai-mo (ἀπαγγείλατε), para que (ὅπως) eu vá e o adore (προσκυνήσω).”
A estrutura do participio adverbial πορευθέντες seguido do imperativo ἐξετάσατε é similar a construção da Grande Comissão: “ide e fazei discipulos” (πορευθέντες ... μαθητεύσατε). Tem sido por vezes argumentado que “Ide” não carrega consigo força de imperativo. A resposta gramatical (veja Wallace, Greek Grammar Beyond the Basics, página 645) é que o particípio obtem força do imperativo e assim pode ser traduzido imperativamente.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cabeçalho de Marcos (Mc 1.1)

Autor: Manuel Rojas

Estou expondo o evangelho de marcos aos domingos a noite. Se Deus quiser, quero postar alguns relances que espero ser de utilidade para um estudo mais aprofundado deste santo evangelho. O Segundo Evangelho inicia-se com estas linhas:

Ἀρχὴ τοῦ εὐαγγελίου Ἰησοῦ Χριστοῦ [υἱοῦ θεοῦ].
ΑΡΧΗΤΟΥΕΥΑΓΓΕΛΙΟΥῙῩΧ̄ῩῩῩ(ΤΟΥ)Θ̄Ῡ

Esta oração não possui predicado e funciona como um cabeçalho. Ao meu ver, o substantivo articulado Ἀρχή (“princípio”) é versátil, ou seja, se pode aplicar a toda a obra e ao prólogo, a porção compreendida em Mc 1.1-13 (ou até v. 15). O uso de substantivos articulados no início de um escrito se ajusta ao estilo tipicamente bíblico. Tanto o Primeiro Evangelho bem como o livro de Apocalipse têm substanticos articulados em seus cabeçalhos. Esta classe de cabeçalhos com substanticos articulados ocorre com frequência nos escritos proféticos. Isto seria uma indicação de que a oração na abertura do segundo evangelho constitui um cabeçalho para a obra. Devido o uso desta palavra no início do texto da versão grega de Gênesis: ἐν ἀρχῇ ἐποίησεν ὁ θεὸς τὸνοὐρανὸν καὶ τὴν γῆν (Gênesis 1.1 – LXX) e no prólogo do quarto evangelho: Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν,καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος (João 1.1). Alguns tem compreendido este cabeçalho como uma intenção por parte do autor do Segundo Evangelho em vincular sua obra com o relato da criação. No entanto, o uso de ἀρχή em Gênesis e Marcos é diferente. O único aspecto que possuem em comum é a utilização da mesma palavra, mas [ainda assim] sua utilização em Marcos é diferente de sua utilização em Gênesis. Em Marcos não se trata do princípio de tudo, senão do “princípio [Ἀρχὴ] do Evangelho [τοῦ εὐαγγελίου]”.

Fonte: Estudios Bíblicos

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Gálatas 1.9 - Moisés Olímpio Ferreira

ὡς προειρήκαμεν καὶ ἄρτι πάλιν λέγω εἴ τις ὑμᾶς εὐαγγελίζεται παρ' ὃ παρελάβετε ἀνάθεμα ἔστω.

"como já disse de antemão e também agora de novo estou dizendo: se alguém vos está anunciando o bom-anúncio para o lado (fora) do que tomastes ao lado (recebestes), maldito seja" (Gálatas 1.9)

Duas importantes meditações devem ser feitas nesse texto.

A primeira é quanto à necessidade de manter o "que foi tomado ao lado", guardando-o, preservando-o, mantendo-o vivo.

E a segunda, mas não menos importante do que a primeira, é: apesar da identificação que todos possam sentir com essas recomendações paulinas (e, de fato, qualquer um, com as mais diferentes doutrinas "baseadas" na Bíblia, pode nelas se espelhar), devemos nos perguntar: o que recebemos (seja lá por meio de quem for) é o mesmo que Paulo entregou aos Gálatas? E, na impossibilidade de isso ser determinado com exatidão, o quanto estamos perto do que foi entregue? Talvez sejam essas as questões cruciais de todo o sistema religioso sob o rótulo de cristianismo.

Fonte: http://moisesolim.blogspot.com

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

As diferenças dos verbos gregos no dialogo de Jesus e Pedro em João 21.25-17 - Francisco Mário

Pr. Francisco Mário

No mundo da Erudição e dos estudiosos da Bíblia paira uma mania e um perigo: Quando um livro é escrito ou um escritor traz uma tese, geralmente os outros eruditos seguem sem questionar, sem falar nos estudantes de teologias e seminaristas. Um exemplo disso é a exegese truncada e defeituosa de Jo 21.15-17 dizendo que não há diferença de significado entre os verbos agapao e phileo. Apesar de respeitar as interpretações de alguns autores, inclusive da Editora Vida Nova, bem como Luiz Sayão que fez um breve apanhado dessa exegese na revista Enfoque, tem-se que afirmar que a negação das diferenças de significado desses dois verbos consiste em lapsos de exegese, bem como erros sutis de hermenêutica.

Toda língua tem palavras com suas denotações e conotações diversas. O que para o português o verbo amar não diz respeito a vários significados, mas nas outras línguas não é assim. Para os gregos eles tinham, pelo menos quatro acepções para o que traduzimos para amar: agapao, phileo, erao e stergo. Para os gregos o uso dessas palavras tinham acepções especiais e distintas, dentro do significado semântico da época. Por exemplo: o verbo phileo queria dizer ter afeição, incluindo sentimentos. Segundo o Dr. W. Gunther no Dicionário Internacional de Teologia do N.T. ele afirma que "as idéias que se vinculam com phileo não têm ênfase claramente religiosa". Para os gregos o verbo phileo leva um significado de um gostar mais subjetivo, instável, amigável. Para o verbo agapao, a literatura secular grega denota como tratar com respeito, dar boas vindas, estar contente com. Todas essas acepções demonstram objetividade e prática. Há ocasiões que o significado é alguém favorecido por um deus (cf. Dio. Cris., Orationes 33, 21, citado pelo DITNT, Editora Vida Nova Vol. 1). Há ocorrência do substantivo agape como título à deusa Ísis (P. Oxy. 1380, 190; século II d.C.). O que se pode notar claramente pelas acepções do grego secular é que os significados eram claramente distintos em suas essências. Um demonstrava significado mais subjetivo, de amizade; o outro, mais prático e relacionado a deuses. Se os escritores que escreveram o NT usavam a língua grega, tem-se que esperar que eles atentavam para as diferenças de significados, pois, caso contrário, eles entrariam numa confusão semântica.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A Importância da Língua Grega para os Estudos da Teologia Bíblica do Novo Testamento - Leonardo Felicissimo

Leonardo Martins Felicissimo

Sempre que um assunto relacionado aos idiomas bíblicos originais é abordado, um pânico surge para os que estão envolvidos com o texto bíblico sejam, Seminaristas, Professores, Leigos, ou Autores. Este sentimento de preocupação diante dos idiomas originais não é algo a ser tratado com insignificância, pelo contrário, o alto nível de dificuldade do trabalho com as línguas originais Grego, Hebraico e Aramaico é reconhecido pela maioria dos gramatas. A análise de modos, aspectos, casos, tipos, declinações, prefixos e sufixos causam em não poucos estudiosos o pavor de relembrar as inúmeras regras de análise sintática, morfológica e aspectos verbais.

Infelizmente, o trabalho que se deve ter para a produção de uma exegese de um texto bíblico, ou a simples verificação da palavra no original, tem feito com que alguns negligenciem a importância do conhecimento dos idiomas originais, e estes levam muitos outros a desprezarem o trabalho gracioso de compreender o texto bíblico em seu idioma original. Nos dias de hoje, não são muitos os que se esmeram por dedicar-se ao estudo dos idiomas originais na preocupação de transparecer mais a opinião das Escrituras ao invés de suas próprias reflexões “reveladas” ou as reflexões filosóficas de seus teólogos liberais favoritos. Esquecemos que os grandes estudiosos da história da teologia esforçaram-se por aplicar-se ao idioma original partindo daí para uma aplicação que fosse condizente com o que o autor do texto bíblico se propôs a repassar em seu tempo.